23 de setembro de 2020

Despertar pela imagem celestial de um cão no nevoeiro, com penas de sangue na boca, a olhar fixo como se o seu ataque, mais rápido do que a percepção dele, ainda o fizesse buscar o alvo. No mesmo terreno, a criança entreabre os dedos, dosa a queda dos grãos do tempo, não quer crescer depressa, prefere que as galinhas biquem seus sapatos. 


19 de julho de 2020

Nem tudo o que fere finda ao nascer do sol. Às vezes é preciso que o sol renasça, uma e outra vez perante à perda, até se tornar uma compensação. 

23 de julho de 2019

Acordo inocente, purificada pela lobotomia. Sou o frescor do éter que esteriliza o erro. O erro inexiste se existe apaziguamento. É isso o que procuro, o apaziguamento, não o perdão. 

23 de junho de 2018

Guardo-me na interdição da luz, com as vértebras sitiadas pela escoliose. Todos os anjos têm escoliose,​ porque a queda exige um contra esforço, quando a vocação é nunca parar de cair. 

26 de maio de 2018

Afoguei o meu medo na nascente da tua boca, e do teu riso fez-se o descalabro da escuridão. 

22 de abril de 2018

Carne biônica acusada pelos detectores de metais, que impedida de seguir adiante sempre segue, sem nada nocivo senão a sua imagem: queimaduras de garfo temperado no gelo, onde a pele subsiste entre a platina e a anidrose. 

15 de abril de 2018

Frequento rinhas de cães porque na clandestinidade de uma garagem a violência é compatível com a vida social: a hipocrisia não esbraveja em defesa do polimento. Respiramos o mesmo ar nauseabundo, de animal que perde e é arrastado pelas patas traseiras. 

15 de março de 2018

Segue-o como uma sombra que escuda. Fá-lo temer o pressentimento com as mandíbulas cerradas, ansiar a proteção do ventre já definhado. A agorafobia foi um legado. E a anarquia da infância?

9 de setembro de 2017

Os pensamentos elaborados pelo sono são tumores que se autoconsomem ao amanhecer. Acordo com paralisia vocabular. Escrevo como um macaco subjugado pela neurologia. Só a cafeína faz de mim, novamente, um ser humano sagaz, digno de limpar o rabo sem tocar na merda. 

22 de junho de 2017

Dissipo o calor com um leque de facas. O lençol é ainda a tua segunda pele. Os figos, enrugados como túbaros, também não gastam o tempo mais do que ele gasta a si próprio.